Formatos alterativos de teses e dissertações

O assunto que trataremos neste post tem despertado diversas polêmicas e dúvidas em alguns programas de pós-graduação das universidades brasileiras. Trata-se da elaboração da tese no formato de artigos científicos. Este novo formato é uma tendência crescente nos programas de pós-graduação de diferentes países. Esta mudança é uma consequência dos padrões de avaliação de desempenho que, em grande medida, estão baseados no número de publicações realizadas pelos pesquisadores. O novo formato pode-se tornar uma opção atrativa para aumentar o número de publicações. Porém, alguns questionamentos são levantados, dentre eles:

Em que consiste este formato e quais as suas diferenças se comparado com o formato tradicional de teses e dissertações? Este formato pode ser considerado como uma dissertação ou tese de doutorado ou é apenas uma coleção de artigos? Como deveria ser estruturada a tese em tal formato? Quais são as desvantagens diante do formato tradicional de tese?

A seguir vamos tentar responder sucintamente essas questões.

Em que consiste este formato e quais as suas diferenças se comparado com o tradicional?

Em primeiro lugar, quando dizemos “formato tradicional” nos referimos ao formato que consiste geralmente de uns 5 a 6 capítulos, compostos por (i) uma introdução (problema, questões de pesquisa, objetivos, etc.), (ii) revisão da literatura, (iii) método de pesquisa utilizado (ou materiais e método, dependendo da área), (iv) resultados, (v) discussões e (vi) conclusões. Este tipo de tese tem uma forma mais contínua, como um livro.

Por outro lado, a tese em formato de “artigos” ainda não está bem definida. Existem programas em algumas áreas que estabelecem que, se o aluno consegue publicar dois ou três artigos em periódicos internacionais renomeados já pode obter seu título de mestre ou doutor. Não é isto ao que estamos nos referindo aqui. Quando dizemos tese em formato de artigos nos referimos à que consiste, geralmente, em um capítulo introdutório, 4 ou 5 artigos (análogos aos capítulos da tese do formato tradicional), encerrando com um capítulo de discussões e conclusões, ou apenas de conclusões.

A principal característica da tese em formato de artigos é que cada artigo tem suas próprias características de individualidade. Isto significa que cada artigo terá seu próprio objetivo, revisão da literatura, método de pesquisa, resultados, discussões e conclusões, de maneira que ele possa ser submetido e aprovado em um periódico acadêmico independentemente dos demais artigos, ou baseado nos resultados parciais obtidos no artigo anterior. Assim sendo, já é possível notar algumas vantagens deste formato, pois permite ao aluno e seu orientador terem, no final da tese, uns 4 ou 5 artigos prontos para publicar ou já em processo de submissão. Esta é grande vantagem da proposta. Nem o aluno, nem o orientador, precisam se preocupar após a tese com a elaboração dos artigos. Portanto, poderíamos dizer que, se o objetivo final do pesquisador é a publicação dos seus resultados, este formato é mais eficiente e focalizado para tal objetivo.

Este formato pode ser considerado como uma tese de doutorado?

Muitos tradicionalistas criticam severamente esse “novo modelo” – e eles também têm bons argumentos para isto. Um dos argumentos é que uma tese deve ser uma escrita contínua, fluída e com ideias coesas, tendo uma única proposta central. Contudo, acredito que este argumento esteja mais baseado em alguns equívocos típicos que se cometem na hora de elaborar a tese no formato de artigos. Alguns equívocos que tenho visto, e que em minha opinião podem gerar tais críticas são os seguintes:

  1. Que os temas dos artigos não desenvolvam um objetivo e assunto central de toda a tese e que proponham, cada um deles, objetivos isolados sem nenhuma relação entre os diversos artigos.
  2. Que os resultados de cada artigo não estejam estreitamente vinculados aos dos artigos subsequentes, isto é, que não exista uma sequência lógica e evolutiva na ordem de apresentação dos artigos.
  3. Que cada artigo tenha uma formatação diferente (a formatação de cada periódico ao qual foi ou será enviado, ao invés de seguirem um único padrão da tese), ou escritos em uma língua diferente (já vi teses nas quais alguns artigos estavam escritos em português para serem enviados a revistas nacionais e outros em inglês para serem enviados a periódicos internacionais). Isto não é estritamente um problema, talvez seja mais uma questão de gosto. Porém, a tese pode parecer desorganizada quando se apresenta desta maneira.
  4. Que os artigos sejam extremamente similares e as diferenças estejam apenas em alguns resultados muito pontuais que não justificariam o desdobramento em vários artigos.

Talvez existam outros erros, mas estes são os que vejo com mais frequência. Evitando tais erros, não haveria problema em seguir uma lógica clara de artigos para tentar responder à questão central da tese de doutorado, que geralmente é apresentada em um capítulo introdutório.

Como deveria ser estruturada a tese em tal formato?

Para não cometer os erros anteriormente citados e realmente manter a propriedade de uma tese de doutorado, a qual busca responder uma questão de pesquisa resultante de um problema identificado pelo pesquisador, podem-se seguir duas opções para estruturar este formato. Outras opções podem apresentar alguma combinação híbrida.

A primeira opção é quando a tese propõe estudar várias opções para solucionar um determinado problema (ver Figura 1A). Isto seria o caso do que eu chamaria como “artigos horizontais”, uma vez que cada artigo abordaria o mesmo problema, embora de uma perspectiva diferente. Assim sendo, cada artigo apresentaria um método diferente e um último artigo, ou um capítulo de discussões, poderia propor o comparativo de todas essas propostas para avaliar vantagens de desvantagens de cada um deles. Por exemplo, na área de Engenharia, um objetivo poderia ser o desenvolvimento de diferentes métodos para o controle de qualidade em um sistema de produção, comparando vantagens e desvantagens de cada um deles. Assim sendo, cada artigo proporia um método diferente, alguns qualitativos, outros quantitativos, para solucionar o mesmo problema. Por fim, a tese realizaria um comparativo e talvez sugerisse uma melhor aplicabilidade de cada método em determinados contextos.

Figura 1. Estruturas básicas de tese em formato de artigos

Figura 1. Estruturas básicas de tese em formato de artigos

A segunda opção é quando a tese propõe estudar um determinado problema e, para isso, precisam-se obter resultados intermediários (isto costuma ser muito comum em um projeto de pesquisa bastante amplo e abrangente) (ver Figura 1B). Nesse caso seria comum que cada artigo atendesse a um dos objetivos específicos da tese (que por sua vez atendem ao objetivo geral desta). Eu chamaria esta abordagem de “artigos verticais ou sequenciais”, uma vez que cada artigo aborda um novo problema e objetivos específicos baseados nos resultados do artigo precedente. Neste caso, os resultados parciais de cada artigo vão conduzindo ao resultado final desejado para atender ao objetivo geral. Por exemplo, na área farmacêutica, um objetivo poderia ser estudar os efeitos de um novo fármaco sobre algum órgão humano. Assim sendo, um primeiro artigo trabalharia sobre o desenvolvimento de possíveis formulações contendo o fármaco, bem como as caracterizações dessas formulações, um segundo artigo poderia estudar os efeitos dessas formulações in vitro e, o artigo final, poderia eleger a formulação com o melhor perfil e aplicar em modelo animal para um estudo in vivo. Nesta abordagem, todos os passos intermediários foram necessários para estudar o objetivo principal, e todos eles são resultados significativos para serem publicados em artigos individuais.

Figura 2. Estrutura mista para tese em formato de artigos

Figura 2. Estrutura mista para tese em formato de artigos

Outras opções de estruturas podem combinar as duas abordagens anteriores (ver Figura 2). Por exemplo, uma tese pode primeiro desenvolver dois ou três métodos diferentes (um em cada artigo), para depois realizar um comparativo das aplicações de ambos em diferentes contextos industriais (terceiro artigo) e, após, estruturar uma sistemática que auxilie na seleção do método mais apropriado para um problema específico que se apresente. Este tipo de propostas é muito comum em teses com um forte foco prático, como os da área da Engenharia (área do meu conhecimento). Outras combinações também são válidas, sempre que mantenham o foco no objetivo principal da tese.

Quais são as desvantagens diante do formato tradicional de tese?

Então, se citamos tantas vantagens interessantes desta abordagem de tese, por que não adotá-la? Existem alguns pontos que precisam ser considerados para decidir a favor de adotá-la o não. O ponto principal, em minha opinião, é o fato dela ser mais rígida do que o formato tradicional. Isto significa que no formato tradicional o aluno pode retornar ao objetivo principal do projeto de tese e reajustá-lo com bastante facilidade. Neste caso o processo pode ser mais flexível e a tese pode ser ajustada em um processo mais gradual. Por outro lado, no caso da tese em formato de artigos já não é tão fácil. Em primeiro lugar porque se espera que à medida que os artigos vão ficando prontos, estes sejam submetidos aos periódicos. Além disso, para poder desenvolver uma sequência de artigos precisa-se ter mais claro o que se pretende resolver ou determinar ao final da tese. Portanto, o objetivo principal e as etapas da pesquisa precisam estar muito mais claros na mente do pesquisador já nas etapas iniciais, para projetar a sequência desses artigos.

Em base ao argumento anterior, talvez o formato de artigos seja mais apropriado no caso em que a tese forme parte de um projeto de pesquisa maior (como acontece em grupos de pesquisa com linhas consolidadas) ou quando o aluno já explorou parte do tema em etapas anteriores (por ex. na iniciação científica ou dissertação de mestrado). Isto ajuda a evitar erros comuns como a falta de foco e alinhamento dos artigos ou, no pior dos casos, uma falta de um norte claro para o projeto da tese.

Alguns assuntos pendentes…

Até aqui tratamos alguns aspectos gerais sobre este assunto. Porém, ainda há algumas perguntas que podem surgir na mente dos leitores. Por exemplo, para que serviria a avaliação da banca de doutorado se os artigos já foram submetidos a um peer-review e foram aprovados já durante o doutorado do aluno? Qual seria o papel da banca neste tipo de formato? Outras confusões e questões típicas são as seguintes: a revisão da literatura em cada artigo deve ser a mesma? Como evitar a reiteração de conceitos nos artigos? Esperamos responder estas questões em futuro artigos.

Se você tem alguma experiência ou crítica para compartilhar sobre esses formatos alternativos de tese e dissertação, contribua para a discussão deixando o seu comentário.

Leia também:

Sobre Alejandro G. Frank

Alejandro G. Frank é professor efetivo (Adjunto A) do Departamento de Engenharia de Produção e Transportes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (DEPROT/UFRGS). Possui graduação em Engenharia Industrial pela Universidad Nacional de Misiones, Argentina (2007), Mestrado (2009), Doutorado (2012) e Pós-doutorado (2013) em Engenharia de Produção (com ênfase em Sistemas de Qualidade/Desenvolvimento de Produtos) pela UFRGS, Brasil. Foi pesquisador visitante do CNPq (sanduíche) no Dipartimento di Engegnaria Gestionale do Politecnico di Milano, Itália, durante o ano 2012. É autor e revisor de artigos nos periódicos International Journal of Production Research, Knowledge Management Research & Practice, International Journal of Quality and Reliability Management, IT Professional, Revista Produção, entre outros. Obteve prêmios de pesquisa como o 2012 Latin American Management Research Fund Award organizado pela Editora Emerald e pelo Consejo Latinoamericano de Escuelas de Administración (CLADEA) e o Concurso Jovens Empreendedores, organizado pela Universidad Nacional de Misiones. Suas principais áreas de pesquisas e atuação profissional são: Gestão de Desenvolvimento de Produtos, Gestão Organizacional, Gestão de Projetos e Gestão do Conhecimento. Contato: frank@producao.ufrgs.br
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8 respostas para Formatos alterativos de teses e dissertações

  1. Olá Alejandro,
    A minha dissertação foi escrita conforme o esquema 1A. Tratava-se de dois ‘artigos capítulos’ que tratavam do tema central de duas perspectivas diferentes, no caso, o tema era a especialização em sistemas planta-polinizador, sendo um capítulo sobre néctar e outro sobre pólen.
    Achei que foi muito proveitoso, porque a ideia da dissertação ficou ‘fechada’ e ficou claro que eu tinha duas formas paralelas de discutir o mesmo tema. E a banca foi determinante para a melhoria dos futuros capítulos. Acho que evitou um pouco a situação “para a dissertação está bom, mas para os artigos…”, que a gente observa em algumas defesas.
    Sobre o papel da banca, se os artigos ainda não foram submetidos, realmente ela fará diferença. Por outro lado, há muitas instituições, como a USP, que o aluno deposita a tese/dissertação na biblioteca, e a banca apenas aprova ou não, este sistema (independente da tese ser tradicional ou em capítulos) sucinta a uma dúvida semelhante: para que serviria a avaliação da banca se a tese/dissertação não vai ser alterada?
    Atenciosamente
    Valdir
    Biólogo e Mestre em Ecologia pela UFOP
    Blog http://naraiz.wordpress.com/

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    • Alejandro G. Frank disse:

      Olá Valdir,
      Bem colocado a questão da correção e divergências na banca entre a dissertação e os futuros artigos! Por outro lado, sobre a questão da contribuição da banca, me parece que depende da política de cada departamento ou universidade, dependendo o caso. Por exemplo, no Departamento em que trabalho, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a política é a seguinte: mesmo que os artigos já tenham sido publicados ou estejam na fase de revisão, a apresentação deles na tese compõe um único corpo de tese e não de artigos. Portanto, o avaliador da banca tem plena liberdade de exigir mudanças nesses artigos da tese e o aluno deverá se sujeitar a tais correções no corpo da tese, independentemente da versão do artigo que está em submissão. Com isto se impede limitar a ação e utilidade do membro da banca. Claro que o bom senso sempre levará ao membro da banca se concentrar mais nos artigos que ainda não foram publicados de fato e que estejam em preparação para submissão ou em revisão, onde ainda é possível aproveitar suas críticas. Caso todos os artigos estejam já publicados, me parece que o maior desafio do membro da banca seria sugerirão aluno futuros trabalhos baseados nos resultados da tese.

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    • Prezado Valdir, gostaria que me informasse sobre se os artigos estavam inéditos até a defesa? Se ela está disponível em algum repositório? E como foram feitas as referência bibliográfica destes artigos. Atenciosamente,

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  2. Jayme Souza Neto disse:

    Olá Alejandro, parabéns pelo artigo.
    Acredito que com relação à banca, nada muda, independentemente do formato adotado para a apresentação da tese. Minha opinião é que, mais do que o trabalho em si, o papel da banca é avaliar se o candidato tem condições de receber o título ao qual se candidatou (mestre ou doutor). Neste caso, será muito importante avaliar o domínio do estudante sobre os artigos apresentados e qual foi o papel dele na redação dos mesmos.

    Abraços,

    Jayme Souza-Neto, PhD
    Professor Visitante CDTS/Fiocruz
    Genômica Funcional e Microbiologia de Insetos Vetores

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    • Alejandro G. Frank disse:

      Olá Jayme,
      concordo plenamente contigo. Muitas vezes a banca está focada apenas no trabalho escrito e deixa-se do lado a oportunidade e pertinência de avaliar o grau de conhecimento do aluno sobre o trabalho escrito. Acredito que uma banca produtiva seja aquela que levanta discussões entre o candidato (que deve justificar suas escolhas) e o avaliador. Outro aspecto da banca já comentei anteriormente na resposta ao Valdir, que também acredito seja importante considerar na hora de avaliar a tese.

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  3. Leopoldina Batista disse:

    Gostaria de informações ou links de programas de pós graduação ligados a área biológica/saúde que consideram ou aceitam a publicação de artigos científicos no lugar da dissertação ou tese

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    • Alejandro G. Frank disse:

      Olá Leopoldina,
      eu sou da área da Engenharia, então não tenho condições para te passar informações certas a respeito. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o PPG de Farmácia trabalha com teses em formato de artigo. Não conheço outros programas dessa área. Talvez outros leitores que leiam esta discussão possam ajudar com tal informação (espero que sim!).
      Abraços

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  4. Robson Castro disse:

    Olá Alejandro!

    Parabéns pelo Blog, muito bacana.
    Estou escrevendo um artigo para o International Journal of Production Research.
    Se trata de uma revisão bibliográfica sobre um sistema de PCP pouco tratado por artigos internacionais. Para complementar a revisão criei um modelo de simulação sobre esse sistema e para demonstrar oque ele pode trazer de resultados.

    Gostaria de saber se esse é o tipo de artigo interessante para o IJPR, e se você tem alguma sugestão ou dica.

    Agradeço se puder me ajudar

    Grande Abraço

    Robson Castro

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