A questão da dupla publicação de artigos

Uma questão interessante foi levantada por um leitor acerca de publicar a tradução de um artigo científico já veiculado. Suponha que um artigo tenha sido publicado em inglês em uma revista internacional. É possível (ou ético) publicá-lo traduzido para o português em revista nacional?

Consultamos dois editores de revistas científicas que forneceram sugestões muito interessantes.

Segundo Marcelo Freitas, editor científico da Revista Brasileira de Física Médica, a publicação de um artigo em inglês em uma revista e o mesmo artigo em português em outra revista é possível, especialmente na área da saúde, mas existem critérios para esse tipo de publicação. Um dos critérios é que ambos os editores das revistas devem concordar com essa publicação em duplicidade, e deve haver citação que se trata de uma versão (em português – se for o caso) de artigo já publicado em outra revista. Na citação do artigo pelas bases de dados deverá haver uma só citação, informando todos os idiomas de publicação do artigo.

Na área de exatas, isso é pouco comum, pois a justificativa de conseguir um maior alcance é fraca. No entanto, cada revista costuma explicitar isso nas regras de submissão e, se essa informação não estiver disponível, há necessidade de consultar o editor.

Veja um exemplo no ArXiv, que mesmo não sendo considerado uma revista no formato tradicional, os autores fazem referência ao artigo primário publicado: http://arxiv.org/abs/0710.3291. Recomendamos também a leitura das instruções sobre publicação duplicada do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (International Committee of Medical Journal Editors, ICMJE) no site: http://www.icmje.org/publishing_4overlap.html, particularmente a seção “Acceptable Secondary Publication”.

Piotr Trzesniak, editor associado do Interamerican Journal of Psychology e da Revista Brasileira de Ensino e Pesquisa em Administração, recomenda às revistas brasileiras (uma MESMA revista) que ofereçam o texto completo em português ou espanhol e também em inglês. Isto dá acesso ao conhecimento a um público muito mais amplo do que qualquer idioma isoladamente. Então, aí, traduzir se justifica.

Obviamente, os autores devem lançar uma única produção nos seus respectivos currículos. O título e a paginação da versão traduzida podem ser inseridos, entre colchetes, logo após os seus correspondentes da versão no idioma principal.

A tradução também é válida se uma revista aceitar publicar um artigo já veiculado por outra em outro idioma. Apesar do risco ampliado de certos autores poderem se aproveitar disso para inflar sua produção, eu não o proibiria, pois não há como controlar. A decisão de aceitar ou não a republicação, no fim, é do Editor que a acolhe.

Acredito que seja melhor definir um procedimento aceitável o qual, na minha visão e ética pessoal, envolve:

  1. que os Editores das duas revistas estejam informados e de acordo.
  2. que, nas publicações adicionais, haja uma nota na página inicial, informando tratar-se de tradução e remetendo à referência original.
  3. que os autores lancem uma única produção nos respectivos currículos, incluso o Lattes, informando a referência original e, logo depois, entre colchetes, o ano da republicação (entre parênteses), o título traduzido e os dados da nova revista – nome, volume, fascículo, paginação.

O professor da área de Ecologia, Marco A. R. Mello, da Universidade Federal de Minas Gerais, lembra também que a discussão acima não exclui a possibilidade de uma versão em português do artigo, mas com linguagem e conteúdo diferentes, seja publicada em um formato de divulgação científica para um público mais amplo, em revistas como Ciência Hoje ou Pesquisa FAPESP, ou mesmo em jornais de grande circulação.

Ele diz também que na Ecologia a prática de publicações duplicadas é condenada. O que algumas revistas da área permitem é incluir um segundo resumo no artigo, no idioma que o autor preferir, a fim de torná-lo mais acessível a leitores do país onde a pesquisa foi realizada. (Marco Mello tem um blog, onde escreve artigos com conselhos sobre este e outros temas para cientistas iniciantes: http://marcoarmello.wordpress.com.)

Leia também:

Contribuíram para este artigo: Marcelo Freitas, Piotr Trzesniak, Marco Mello e Eduardo Yukihara. Agradecemos também às sugestões dos leitores.

Sobre Emico Okuno

Emico Okuno é Professora Sênior do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Possui bacharelado e licenciatura em Física pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1960) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1971). É autora ou co-autora de diversos livros didáticos de ampla utilização nas universidades do Brasil, inclusive os livros “Física para Ciências Biológicas e Biomédicas”, “Radiação: Efeitos, Riscos e Benefícios”, “Desvendando a Física do Corpo Humano: Biomecânica” e o mais recente “Física das Radiações”. Ela tem mais de 70 artigos publicados em revistas científicas internacionais e serve regularmente como revisora de artigos para diferentes revistas científicas e projetos de pesquisa para agências como a FAPESP e o CNPq.
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2 respostas para A questão da dupla publicação de artigos

  1. Marco disse:

    Parabéns pelo excelente blog de vocês!

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  2. Carol disse:

    O blog me ajuda pra caramba!obrigada! O artigo já me ajudou pacas mas estou aqui com uma dúvida. Em algumas revistas é obrigatório que o autor original dê seu aceite para que a tradução possa ser realizada. Isso é uma norma juridica ou somente uma orientação particular das revistas? Não encontrei nada à respeito disso. Esse fato atinge diretamente o que tenho feito. Acabo de realizar uma tradução de artigo acadêmico,porém o autor não foi consultado à esse respeito, então eu perdi a tradução? Obrigada!abraços

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