Servindo como revisor de artigos para revistas científicas

Revisar artigos científicos demanda muito tempo, não é nada gratificante, mas traz alguns benefícios: (a) a leitura crítica de outros trabalhos nos ajuda a melhor olhar criticamente os nossos próprios manuscritos, podendo melhorá-los; (b) o trabalho de revisão nos força a atualizar com relação a outros tópicos não diretamente relacionados ao nosso trabalho; (c) revisões bem feitas contribuem para nossa reputação na comunidade científica (ao menos junto ao editor).

Como fazer a revisão de um artigo científico para uma revista?

Antes de tentar responder essa questão, gostaria de deixar claro que não queremos entrar na controvérsia sobre os problemas do atual sistema de publicações científicas. Acreditamos que o sistema de peer review contribui para melhorar a qualidade das publicações – vemos isso nas nossas próprias submissões. Frequentemente os revisores apontam aspectos confusos ou que não foram propriamente considerados, ajudando a melhorar o manuscrito.

As seguintes dicas são baseadas na nossa limitada experiência, mas espero que sejam úteis para aqueles que estão começando a servir de revisores de alguma revista ou para aqueles que gostariam de fazê-lo de forma mais eficiente, mas nunca pararam para pensar muito no assunto. Espero também que as dicas possam ajudar os autores a entenderem as revisões recebidas de seus próprios manuscritos. (Veja também o guia para revisores da Elsevier, que está disponível nos links úteis na menu do lado direito.)

Atualmente tento seguir os seguintes passos ao fazer a revisão de um artigo para uma revista. (Esse formato é na verdade bastante usado pelos revisores.)

1. Faça um resumo do manuscrito (~1 parágrafo)

Fazer o resumo dos pontos principais do manuscrito nos força a tentar entender a essência do trabalho e mostra ao editor que o revisor compreende o assunto tratado. Esse resumo também é importante para a seguinte decisão:

2. Decida se o trabalho científico merece ser publicado na revista

Antes de listar uma série de correções a serem feitas pelos autores, o melhor é decidir se o trabalho merece ser publicado na revista. Essa é a decisão mais importante a ser feita sobre o manuscrito, afetando diretamente o nível de detalhes das correções a serem sugeridas. Se o manuscrito não tem mérito ou foge do escopo da revista, não adianta ficar consertando detalhes pequenos. Nesse caso, o melhor é recomendar rejeição ou submissão para outra revista, justificando a recomendação com uma lista detalhada dos problemas fundamentais encontrados no manuscrito.

Dentre os problemas fundamentais que podem ser encontrados, podemos citar:

  • O método científico tem falhas fundamentais
  • O manuscrito é incompreensível
  • O manuscrito adiciona muito pouco ao conhecimento existente
  • Partes do manuscrito já foram publicadas em outros artigos
  • O manuscrito contém muitas partes plagiadas de outros trabalhos
  • O assunto do manuscrito não se encaixa no escopo da revista

Se o manuscrito não merece ser publicado, a revisão pode parar por aqui. Faça uma lista numerada e detalhada das suas críticas fundamentais. Se válidas, os autores sempre podem levar em consideração as críticas, refazer as medidas e preparar uma nova submissão.

Se o manuscrito contiver resultados de interesse para os leitores da revista, prossiga com as recomendações abaixo.

3. Liste as maiores falhas

Se o manuscrito traz resultados interessantes e tem mérito, mas requer modificações substanciais, recomende major revision. Forneça uma lista numerada detalhada com as maiores falhas do manuscrito. Isso pode incluir:

  • Erros ou falhas nas análises que não afetam demasiadamente as conclusões
  • Resultados complementares que deveriam ter sido apresentados
  • Resultados desnecessários que não deveriam ser apresentados
  • Erros ou omissões na introdução, metodologia, resultados, etc.
  • Interpretações incorretas dos resultados
  • Linguagem com muitos erros e frases ambíguas
  • Trabalhos importantes que não foram considerados pelos autores
  • Conclusões não suportadas pelos resultados apresentados
  • Reorganização grande de partes do manuscrito

4. Liste as falhas menores

Se o manuscrito contém poucas falhas importantes, estando mais perto da forma final de publicação, forneça uma lista numerada (continuando a numeração anterior) com as falhas menores do manuscrito.

Exemplos:

  • Correções específicas de frases
  • Melhorias na apresentação dos resultados (gráficos, tabelas, equações, algarismos significativos, unidades)
  • Sugestões de trabalhos que não foram considerados pelos autores, mas que não têm impacto grande na interpretação dos resultados
  • Re-organização de partes pequenas do manuscrito

Em geral forneço uma lista de detalhes quando acho que isso pode ajudar os autores a melhor preparar a próxima versão do manuscrito. No entanto, se o manuscrito requer revisões substanciais, isso pode ser uma perda de tempo por parte do revisor.

Erros frequentes dos revisores

Existem alguns erros dos revisores que prejudicam o processo. Vale a pena citá-los:

  • Recomendar rejeição, mas listar apenas problemas pequenos (minor revisions). A recomendação de rejeição sem embasamento não tem utilidade para o editor, sendo facilmente descreditada. Por outro lado, pequenas correções não são motivo para recomendar rejeição.
  • Recomendar publicação de um artigo com muitos erros. Novamente, isso é de pouca utilidade para o editor e contribui para descreditar o revisor, que não entende do assunto ou que não dedicou o tempo necessário para a revisão.

Sugestões

Algumas outras sugestões ao servir como revisor para uma revista:

  • Faça um trabalho sério e construtivo. Essa é uma responsabilidade grande e que exige respeito com os colegas. Muitos dedicaram muito tempo realizando o trabalho e preparando o manuscrito. Mesmo quando recomendar a rejeição, tente ajudar os autores a perceber como melhorar as próximas submissões.
  • Evite ataques pessoais ou críticas mesquinhas. Para deixar as críticas mais impessoais, sempre que possível tente começar as críticas com “o manuscrito…” ao invés de “os autores…”. Por exemplo: “o manuscrito não deixa claro se a metodologia empregada…”
  • Leia as instruções para os revisores fornecidos pela revista. Eles fornecem alguns parâmetros para ajudar na avaliação.
  • Aceite apenas servir como revisor de trabalhos nos quais sua experiência é relevante. Caso contrário, decline o convite e sugira outros revisores.
  • Se houver aspectos do artigo que julgue não ser capaz avaliar, indique isso na revisão.
  • Não aceite servir como revisor se não tiver tempo suficiente. Entregar revisões atrasadas causam atrasos desnecessários na publicação do artigo. O melhor é sugerir ao editor buscar outros revisores. Se por algum imprevisto não puder fazer a revisão dentro do prazo previsto, comunique isso ao editor.

Uma última observação. Em geral os sistemas de revisão pedem tanto “comentários para os autores” (do tipo que descrevemos acima) como “comentários confidenciais para o Editor”. Não sei que tipo de comentário os editores esperam desse último; em geral não tenho nada a falar para o Editor que eu não diria para os autores. Em que situação isso seria importante?

Outras fontes

Para saber mais sobre o que é esperado do revisor, consulte guias para revisores oferecidos pelas revistas. Veja um exemplo conciso da revista Radiation Measurements.

Contribuiu para este artigo: Emico Okuno.

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Sobre Eduardo Yukihara

Pesquisador | Professor | Autor
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9 respostas para Servindo como revisor de artigos para revistas científicas

  1. Alejandro G. Frank disse:

    Ótimo post, Eduardo. O Academy of Management Journal (o mais reputado da área de ciências sociais aplicadas) possui bons exemplos das cartas que eles esperam receber dos revisores. Compartilho aqui o link: http://aom.org/Publications/AMJ/AMJ-Reviewer-Resources.aspx
    Sobre os comentários particulares ao editor, eu costumo escrever ao editor que não sou falante nativo e que não me considero suficientemente apto para avaliar a qualidade do inglês do manuscrito, sugerindo, portanto, que um revisor nativo considere este detalhe muito importante para a qualidade final do texto.

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  2. Duarte Rosa Filho disse:

    Prezado Eduardo:
    Gosto muito de seus comentários e parabenizo sua iniciativa.
    Por outro lado, entendo que sua fluência e costume em revisar textos em inglês o leve a usar muitos gerúndios, que em português poderia significar vício de linguagem.
    Sds.
    Duarte

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    • Duarte, obrigado pelo comentário bem colocado. De fato preciso melhorar o português (que nunca foi bom para começo de conversa). Um dos meus objetivos com o blog é exatamente me forçar a escrever mais em português. Revisarei os artigos com o seu comentário em mente.

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  3. Ótimo post! Regra geral, observo que a revisão de artigos é tratada como tarefa de segundo escalão. No entanto, entendo que se levada à sério, pode ser um importante elemento para o avanço do conhecimento e de sua respectiva divulgação. Abraço

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  4. palhao disse:

    Olá, Dr. Yukihara,

    Apesar de eu já ter sido revisor de aproximadamente uma dezena de artigos, eu nunca havia lido uma discussão do assunto como você faz nesse post. Meus únicos guias foram as recomendações das próprias revistas, que nem sempre são detalhados.

    Outro aspecto com o qual já me deparei, e espero que nunca tenha acontecido com você, é receber um pedido para alterar minha revisão “pois ela não estava condizente com a dos outros revisores”. Acho que tenho direito à minha opinião, obviamente, quando eu fornecer os argumentos necessários para suportá-la. Entretanto, creio que existam motivos políticos que fazem com que esse tipo de situação constrangedora ocorra.

    Parabéns pelo excelente blog e por contribuir tanto com a ciência.

    Um abraço,
    Lucas Palhão.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Halyne Porto disse:

    Só uma sugestão: eu li alguns textos do blog sobre revisão, pois é meu assunto de maior interesse dentro do blog, uma vez que curso Letras e trabalho como freelancer com revisão, e vi que os textos falam em manuscrito. Porém, manuscrito é o texto escrito à mão: manus = mão; scriptus = escrever. Sendo assim, parece meio inadequada falar em manuscrito em um contexto que a produção de textos se dá de forma digitada e as trocas de versão originais e revisadas, geralmente, se dá via e-mail.
    Desta forma, sugiro que em vez de manuscrito, seja empregada a palavra “original”, sendo o este o termo utilizado no mundo da revisão de textos.

    Ademais, agradeço as dicas sobre revisão de textos, bastante construtivas para (re)pensar me trabalho.

    Sucesso!

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    • Halyne, obrigado plea sugestão. Você tem total razão que o termo é inadequado, mas na área científica o termo manuscrito é amplamente utilizado, inclusive para as revistas, para designar a versão não publicada.

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