Prova didática em concurso para docente

Os concursos para contratação de docentes nas universidades públicas brasileiras têm características particulares se comparados ao modo como isto é feito em outros países. A característica mais particular envolve a aplicação de prova didática.

No caso da Universidade de São Paulo, o tema da prova didática é sorteado com 24 horas de antecedência, a partir de uma lista de temas divulgados no edital do concurso. Em termos práticos, o candidato tem 24 horas para preparar uma aula, cuja duração deve ser de 50 a 60 minutos.

As circunstâncias da prova fazem que ela seja não apenas um teste da capacidade de ministrar uma boa aula, mas também um teste de conhecimento, resistência e versatilidade, já que a aula deve ser preparada em 24 horas e ministrada para uma plateia que deve ter mais conhecimento sobre assunto que o próprio candidato.

Algumas características que diferenciam a aula do concurso de uma aula normal, erros que podem ser cometidos e dicas para que estas particularidades não afundem as suas chances de êxito são:

  • A aula deve ser compatível com a de um curso de graduação. Porém, a aula será avaliada por docentes com larga experiência no ensino e que certamente não assistem a aulas há algum tempo. Portanto, a avaliação tende a ser crítica. Excesso de informação e simplificação demasiada são erros comuns.
  • Tente adquirir conhecimento equivalente ou superior à maioria dos membros da banca sobre o tema da aula. Como o assunto geralmente é específico, apenas um ou outro membro da banca tem conhecimento profundo sobre ele.
  • Saiba com antecedência quem é a plateia (banca). Devemos saber a quem estamos tentando ensinar. Por isso, conhecer as áreas de atuação dos membros da banca ajuda na escolha da linguagem, exemplos e analogias.
  • Não há interação com a plateia. Isto faz que a aula tenha característica de palestra, mas não deve ser uma palestra. Há uma zona tênue ideal. Acredito que esta zona envolva a transmissão da essência do assunto. Porém, só se consegue identificar a essência de determinado assunto após certo tempo de convívio e estudo. Portanto, a preparação da aula começa muito antes do concurso. Se os temas de aula forem do seu campo de conhecimento, excelente. Porém, isto não deve eliminar o estudo prévio. Estudar para elaborar um artigo é diferente de estudar para elaborar uma aula.
  • A aula deve ser desenvolvida e concluída entre 50 e 60 minutos. O não atendimento desta regra implica desclassificação. Ou seja, o assunto não pode ser continuado “na aula seguinte”, caso seja superestimado (ou o contrário). Para isto, ensaio é fundamental.
  • Peça colaboração de colegas que conhecem o tema da aula e apresente sua aula para eles. Treino e revisão promovem mudanças positivas.
  • Use o mínimo de texto. Prefira gráficos e imagens. Sendo uma aula, o principal modo de transmissão de conhecimento deve ser oral. Ler texto em slide é proibido, mas é comum candidatos cometerem este erro. A aula deve ser ministrada pelo candidato e não pelos slides.
  • Não utilize figuras ou gráficos com informações que não serão explicadas. Prefira ilustrações simples.
  • Referencie os gráficos e figuras utilizados e informe as referências no slide final. Se você incluir as referências, ninguém irá comentar, mas se esquecer, certamente alguém apontará como ponto negativo.

Estes comentários são baseados na minha experiência de participação em concursos como candidato (2) e membro de banca (2). Candidatos que vivenciam os múltiplos aspectos teóricos, práticos e sociais da pesquisa científica no seu dia-a-dia, mas que também têm cultura científica fora da sua área de atuação apresentam boa capacidade de compreensão e transmissão de conhecimento e têm tudo para ministrar uma excelente aula de concurso. Esta é a dica geral.

Leia também:

Contribuiu para este artigo: Emico Okuno.

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Sobre André Oliveira Sawakuchi

Professor do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do Instituto de Geociências da USP desde 2004.
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10 respostas para Prova didática em concurso para docente

  1. Ednardo Pereira disse:

    Muito boa essas dicas!

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  2. Alfredo disse:

    Estou fazendo um concurso para professor na UFF. Indicaram uso de apenas um livro como bibliografia o qual considerei fraco e repleto de erros diversos. Posso usar outras fontes bibilográficas? Como entregar a comprovação do lattes?

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  3. Professor André, meus parabéns pelo post. Eu procurava por orientação como essa algum tempo. A sua orientação ficou muito bem elaborada. Obrigado.
    Um abraço.

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  4. Mika disse:

    Parabéns pelo texto, adorei as dicas. Tenho umas dúvidas quanto a prova didática: na referência de autores no texto como proceder? Há uma quantidade mínima de páginas que devemos escrever? Att,

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  5. Roger disse:

    Concordo plenamente com você. Já vi exemplos de aulas não muito boas e o candidato passar sem problemas. Outros, apresentam uma aula muito boa e são reprovados. É um sistema de ensino que mostra até o ultimo momento que serve mais para excluir do que para selecionar. A prova didática é muito subjetiva. No momento não são avaliados apenas conhecimentos e clareza de ensino com recursos metodológicos. Mas existem itens ocultos na avaliação: roupa, cheio do candidato, carisma, as vezes cor de pele, orientação sexual (é visível se o candidato é gay ou hetero). Isso tudo e muitos outras variantes (não ir com a cara do candidato) conta na hora de aprovar. Além de tudo isso, ainda existam candidatos com formação melhor do que a banca: Com doutorado e com possibilidades de ser um forte concorrente depois de aprovado, dentro da própria universidade. Então o/a presidente da banca (que é professor(a) efetivo(a) da universidade que você está concorrendo, não vai querer um candidato muito forte que vai sobressair). Logo, REPROVAÇÃO é o jeito mais fácil de se livrar de um futuro colega-estrela. Enfim, avalia-se tudo em uma banca. O governo deveria acabar com essa “farra do boi” em que alguns professores se arvoram na função de juízes com total desrespeito e cinismo para com os candidatos, mas tudo isso envolto em uma falsa aparência de seriedade, de isenção, de perfeição. Para no final, com o candidato REPROVADO esse mesmo candidato até achar que não é bom mesmo para o cargo. Existe casos e casos a analisar. Mas com CERTEZA absoluta a banca de concurso para professor, tal como conhecemos NÃO É A MELHOR OPÇÃO para avaliação. O governo federal deveria promover exames como o ENEM para professores. Assim, os professores fariam apenas uma prova e ficariam no cadastro geral de aprovados. Assim, as universidades poderiam abrir vagas em função desse cadastro de professores aprovados. É lamentável em que coisa a Educação tenha se tornado: um terreno mais para REPROVAR do que para APROVAR o ser humano. Um professor ainda tem a capacidade de detonar com a auto-estima do aluno/candidato cortar a criatividade e fazê-lo arrepender amargamente de ter escolhido essa área que eu considero uma da mais perigosas para a saúde mental. A classe de professores é muito desunidade e não perde a chance de detonar com um colega. Diferente da classe médica ou jurídica ou engenharia, ou psicólogos, nutricionistas e demais áreas: todos tem um código de ética JÁ INCORPORADO naturalmente entre seus membros que é o de não apontar os defeitos dos outros, os erros de um colega de área. Você já viu um medico falar mal de outro colega? Professor não só fala mal como não perde a chance de detonar um colega numa banca examinadora. Aconselho a quem tem chance, de ABANDONAR essa profissão, ou ser proprietário dela com alguma escola, faculdade, etc porque como empregado nessa profissão não vai te levar muito longe ou até onde for sua ambição (não só financeira, mas profissional).

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    • Carlo disse:

      É totalmente ridículo, já fiz uns 6 ou7 desses e sempre o resultado é o mesmo: desclassificado. Já fiz até no lugar em que me formei, sendo desclassificado por professores que me deram aula de ética. E quando alguém que passa exatamente pela mesma coisa, e depois de algum tempo acaba entrando em alguma universidade, fica igual aos outros e passa a fazer a mesma coisa. O tema é meio que um tabu, ninguém quer falar a respeito. Mas o que podemos fazer pra mudar isso? Definitivamente esses testes teriam que ser pelo menos terceirizados. Eu sinceramente gostaria de fazer algo, mas não sei até que ponto seria possível. Precisaria de muitas pessoas, com abaixo-assinado, etc. Talvez aquela proposta de lei popular. Alguma coisa a ser enviada pro MEC, talvez.

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  6. Bruna Matos disse:

    Que acha sobre apresentar aula sem retroprojetor?
    Muito elucidativo seu post!

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    • Atualmente, isto é um desafio, visto as facilidades em se obter material digital. Eu utilizo slides em aula somente para apresentar imagens e gráficos, os quais são importantes para ilustrar conceitos na minha área de atuação (Geociências). Porém, a lousa continua sendo muito útil. Na aula do concurso que fui aprovado, eu combinei slides e lousa.

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  7. Anônimo disse:

    estou prestes a uma primeira experiencia em uma prova, sobre a prova escrita, existe minimo ou máximo de paginas? Qual a media de pags que devo treinar para utilizar na minha preparação.

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  8. Karina Sobral disse:

    Eu acredito que sim, há elementos bem subjetivos na avaliação de um candidato à docência. Mas, estes elementos subjetivos estão em toda a avaliação que envolva pessoas avaliando outras pessoas. Acredito que além da competência pessoal, o fator “sorte” ajuda. Fator este que pode ser compreendido como empatia, carisma pessoal, estado de humor dos membros da banca, etc, etc. Eu fui reprovada em um concurso porque terminei a prova didática 2 minutos antes do tempo determinado. Sendo que encerrei a aula, por perceber que um membro da banca (a presidente) fez sinal p mim mostrando o relógio em seu braço, segundo a mesma p/ me avisar que ainda faltava alguns minutos e que eu deveria continuar a aula. Mas, eu entendi que estava excedendo o tempo da aula e corri para as conclusões. Fui desclassificada. Ela ainda me pediu desculpas depois, quando lhe expliquei que adiantei meu tempo por compreender que seu sinal fosse de “apresse-se, o tempo está acabando”. Poderia ter entrado com um recurso? Sim, poderia, mas a banca não iria voltar atrás na decisão da desclassificação, com ctz buscariam outros elementos para me reprovar e até pq eu tenho ctz que a candidata aprovada já estava escolhida, e não era eu.

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