Relação orientador-aluno

A relação orientador-aluno é uma relação de parceria que pode durar até cerca de sete anos, começando com iniciação científica com duração de uns dois anos, seguido de mestrado, também de uns dois anos e por fim, o de doutorado, de uns três anos. É um período de convívio muito longo durante uma época importante de formação científica na vida de um estudante.

A opinião que segue é puramente pessoal e é o caso específico de estudantes de um instituto que conseguem sala próxima à do orientador e os alunos de doutorado, em geral, são jovens com idade entre 23 e 28 anos que ganham bolsas. Isso porque já co-orientei doutorandos de instituição que não oferece sala e a idade média era de cerca de 40 anos, sem bolsa de estudos, mas com emprego em alguma empresa que deu oportunidade para reunir dados para uma tese.

Para um final feliz, há que haver entre o orientador e orientando uma empatia, uma comunhão de ideias com relação à vida acadêmica, um respeito mútuo, uma colaboração de ambas as partes, uma concepção de ética e honestidade e um compromisso. Se uma dessas questões falhar, a relação pode se deteriorar e acabar em um mal-entendido entre ambos ou na pior das hipóteses, em rompimento.

Uma sala próxima da do orientador facilita o convívio diário, o diálogo, as discussões e o esclarecimento de dúvidas que podem ser feitas no momento que elas surgem. Para uma união e aproximação maior entre docentes e estudantes, instituímos no nosso grupo de pesquisa festinhas no fim do dia. É como comemorar um gol no ato: aniversários, ganhos de bolsa, defesas de teses etc.

Quando um estudante vinha me pedir para ser orientadora, minha atitude sempre foi: não seja afoito; observe-me por alguns meses, pesquise entre meus estudantes como sou, se combinamos e se depois de tudo isso continuar achando que quer ser mesmo meu orientando, aí é a minha vez de saber quem é você. Alguns foram procurar outro orientador por estarem com pressa e houve até o caso de um estudante que veio de longe e me disse: eu a observo há seis meses.

A orientação não é simples, pois cada estudante é diferente do outro: uns odeiam ser cobrados, outros até gostam disso, uns têm mais facilidade e são mais organizados do que outros em tudo, até em redigir; a taxa de produção de um pode ser maior do que do outro, uns têm receio do orientador. Na ocasião de escrever um relatório alguns têm até material para o relatório da próxima etapa, enquanto outros não têm quase nada, pois se dedicaram totalmente às disciplinas. Assim, o orientador tem que também se adaptar ao orientando, captando sutilezas, motivando e cativando, mas chamando a atenção quando necessário. Sinto que todos necessitam de afeição, receber elogios e jogar conversas fora na hora do café. Aqueles que não conseguem largar livros ou o trabalho de pesquisa necessitam de aconselhamento para praticar esporte, ver espetáculos, ler outro tipo de livro ou mesmo dormir. Outros não conseguem se concentrar num assunto e se interessam por tudo e são muito dispersivos. No fundo, o orientador é mais um facilitador do que qualquer outra coisa, pois quem tem que se dedicar e trabalhar é o estudante.

Leia também:

  • Geraldo Alemandro Leite Filho, Gilberto de Andrade Martins, “Relação orientador-orientando e suas influências na elaboração de teses e dissertações” FEA-USP ©RAE • VOL. 46 • EDIÇÃO ESPECIAL MINAS GERAIS, 2006, 99-109. (Este artigo descreve a relação orientador-orientando através de entrevista com 22 orientadores e 15 orientandos de cursos de Administração e Contabilidade de três faculdades da cidade de S. Paulo. Os autores apresentam uma série de sugestões para o aprimoramento do relacionamento orientador-orientando.)
  • Lydia Masako Ferreira, Fabianne Furtado, Tiago Santos Silveira, “Relação orientador-orientando. O conhecimento multiplicador” Acta Cirúrgica Brasileira – Vol. 24 (3) 2009 170-172. (Neste artigo os autores discutem as etapas técnicas na formação do pesquisador, a relação orientador-orientando e os obstáculos ao processo de orientação.)
  • Blog “Sobrevivendo na Ciência”: “A importância de um bom orientador”
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Sobre Emico Okuno

Emico Okuno é Professora Sênior do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Possui bacharelado e licenciatura em Física pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1960) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1971). É autora ou co-autora de diversos livros didáticos de ampla utilização nas universidades do Brasil, inclusive os livros “Física para Ciências Biológicas e Biomédicas”, “Radiação: Efeitos, Riscos e Benefícios”, “Desvendando a Física do Corpo Humano: Biomecânica” e o mais recente “Física das Radiações”. Ela tem mais de 70 artigos publicados em revistas científicas internacionais e serve regularmente como revisora de artigos para diferentes revistas científicas e projetos de pesquisa para agências como a FAPESP e o CNPq.
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8 respostas para Relação orientador-aluno

  1. Thamiris disse:

    Uma das melhores comparações que já ouvi sobre a relação orientador-orientando é a de ser como um casamento. Quando duas pessoas se casam elas precisam saber dividir os problemas, contornar as situações ruins sem criar situações piores, descobrir a melhor forma de crescer juntos e desenvolver o melhor da vida. Pois é exatamente o que o orientador e orientando precisam fazer juntos. Precisam aprender a conviver e crescer para desenvolver o melhor de um trabalho. A única diferença de um casamento, ou pelo menos da maioria deles, é que no caso orientador-orientando, um deles é sempre mais experiente e o outro pode nem saber o que quer.
    Ainda um bom argumento que ouvi (coincidência ou não, da mesma pessoa) é que, como num casamento, os dois podem ser ótimos, mas não a união não funciona. Daí o que se deve fazer é aceitar que o “casamento” não deu certo e seguir a diante, da melhor forma possível. E sempre lembrando que quando passamos por uma porta é melhor deixa-la aberta, porque nunca sabemos quando precisaremos voltar.

    Adorei o artigo.
    Beijos

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  2. Denise Gomes Alves disse:

    Amei o artigo, acho que se todos os orientadores e orientados pudessem ter uma relação assim de cumplicidade que acho um termo bem apropriado, seria tudo mais fácil. Eu não tive muita sorte com os meus orientadores, mas procuro não repetir isso com os meus alunos. Sempre os deixo à vontade para que sigam no seu ritmo sem muita cobrança, pois acho que como facilitadora, o meu objetivo deve ser facilitar o acesso à informação, tratamento dos dados e redação dos trabalhos, então o ritmo deve ser ditado pelo orientado (minha opinião). Fico muito feliz quando um aluno quer ser meu orientado, me dá a sensação de que o meu trabalho está sendo reconhecido. Eu sou professora universitária, engenheira agrícola de formação, atuo na área de alimentos com processamento de produtos agropecuários.

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    • Denise, tua descrição do que tentas fazer com teus alunos me lembra muito a minha relação com meu orientador. Sou engenheiro, estou finalizado o mestrado na área de diagnóstico auxiliado por computador.
      As poucas cobranças que houveram me foram feitas de maneira muito sutil. O modo solto com que fui tratado me deu senso de responsabilidade: eu sabia que a mesma liberdade que me era concedida de trabalhar quando e como quisesse poderia ser o pivô de um inferno pessoal se não fosse bem gerenciada.
      Tive também que trabalhar muito em coisas que, a princípio não pareciam ter qualquer conexão com meu trabalho enquanto mestrando, mas que depois vi estarem relacionadas ao papel do pesquisador. Estava sendo preparado para desafios maiores.
      Enfim, podes ver que tenho uma visão muito positiva da minha relação com meu orientador, e quis relatar para veres que tua maneira de agir pode sim render bons resultados.

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  3. Felipe Rafael disse:

    Muito bacana o texto! Acredito que no fundo no fundo, muitos orientadores tem esse “feeling”, mas claro, sem deixar de cobrar por resultados.

    Sou doutorando em Estatistica e professor substituto na mesma universidade.

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  4. Alessandro Facure disse:

    Emico,
    Espetacular, definiu muito bem. E no final das tantas é isso mesmo, o resultado final depende muito mais do aluno mesmo..

    PS – as vezes essa relação orientador aluno é mais longa….

    abraço grande

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  5. Marco disse:

    Parabéns pelo texto. A metáfora do casamento é boa, mas uma melhor ainda é a do mestre-aprendiz. Essa relação acadêmica é como a que existia na época dos mestres-de-ofício, que aceitavam pupilos para aprenderem uma profissão. O mestre era um patrão e professor ao mesmo, e também um educador (figura paterna/materna) em alguns casos. Concordo plenamente que deve haver uma sintonia entre o orientador e o aluno. Por isso mesmo acho bizarra a decisão de algumas universidades, motivada por demandas populistas da Anpocs, de tirar do orientador o direito de escolher seus alunos de pós-graduação. Nada é mais estúpido do que querer obrigar um professor a orientar um aluno pára-quedista, só porque o mesmo passou na seleção de mestrado ou doutorado, em nome de uma suposta “democratização”.

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    • Emico Okuno disse:

      Agradeço a todos que têm lido e feito comentários. Eu não sabia que em algumas universidades o orientador é obrigado a aceitar um estudante. Pode até dar certo, mas é mais provável não haver sintonia e não dar certo, mesmo que ambos sejam brilhantes. Mesmo fazendo escolha cuidadosa, pode dar errado.
      Como disse A. Facure, quando há sintonia, a amizade, o companheirismo acaba sendo para o resto da vida.
      Muitos orientadores não gostam que seus orientandos os superem, o que é absolutamente errado, e após a defesa deixam de patrocinar seu pupilo. Quando o orientador continua apoiando o aluno, mesmo após o doutorado, ambos crescem e todos têm a ganhar. Em diversas situações agora sou eu que consulto meus ex-estudantes que hoje ocupam cargos importantes e se transformaram em cientistas brilhantes.

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      • Marco disse:

        Emico, essa “imposição de alunos” está cada vez mais comum. Muitas federais, pelo menos nas Ciências Biológicas, têm adotado essa postura. Os defensores desse absurdo dizem que, já que a seleção de pós-graduação é um tipo de concurso público, os candidatos não podem ser pré-selecionados. Idéia estúpida, típica de burocratas e populistas, que aplicam indiscriminadamente as mesmas regras a coisas muito diferentes entre si. Orientadores e alunos têm que ter uma boa sintonia no jeito de trabalhar e na visão da ciência, senão a orientação fica improdutiva e vira uma fonte de estresse para ambas as partes. Usando a primeira metáfora, é como um casamento arranjado: pode até dar certo em raríssimos casos, mas não deixa de ser uma péssima idéia.

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