Quem deve escrever o projeto de pesquisa de mestrado?

Começamos este artigo tentando discutir como escrever o projeto de pesquisa de mestrado, mas a discussão se voltou para a questão de quem deve escrever o projeto de pesquisa de mestrado. É neste aspecto que vamos focar este artigo.

Na nossa opinião um projeto de pesquisa para mestrado, com raras exceções, deve ser escrito pelo orientador, que tem ideia ampla e completa de um tema, das dificuldades inerentes e do tempo necessário para cada parte. No início do mestrado os estudantes raramente têm a maturidade e a visão global necessárias para escrever um projeto bom. A ênfase no início do mestrado deveria ser no aprendizado do método científico, não na redação científica.

Conversamos com pesquisadores de outras áreas para obter outros pontos de vista. Dessa conversa deu para perceber que os orientadores em geral tentam fazer com que o aluno escreva o projeto de mestrado, ou pelo menos participe ativamente na redação, mas grande parte acaba praticamente ficando por conta dos orientadores.

O Prof. André Sawakuchi (Geociências, USP) comenta: “No meu caso, o papel do aluno na redação do projeto tem variado. Eu tento incentivar o aluno a escrever o projeto ou parte dele, mas isto varia muito. Alguns alunos que acumulam certa experiência científica durante a graduação conseguem redigir algo. (…) Porém, mesmo assim, as questões científicas importantes do projeto acabam sendo colocadas ou evidenciadas pelo orientador.”

André também aponta fatores práticos envolvidos: “Nos últimos tempos o peso do orientador na redação do projeto tem aumentado, pois não há tempo suficiente para o aluno trabalhar na redação do projeto e o programa de pós-graduação ou pedidos de bolsa exigem o projeto de mestrado no ato da inscrição. No meu caso, como eu vivia de bolsa da FAPESP, sempre tentava não interromper a bolsa. Ou seja, o projeto de mestrado teve que ser elaborado durante o final da iniciação científica e o projeto de doutorando durante o final do mestrado. Isto para que eu tivesse uma bolsa aprovada antes do final da outra. Foi um atropelo, mas foi bom para eu aprender a escrever projetos sem depender tanto do orientador.”

A Profa. Iracimara de Anchieta Messias (UNESP) também aponta o aspecto da concorrência: “Aqui em Prudente (no mestrado da Educação e Geografia), faz parte do processo seletivo a apresentação de um pré-projeto pelo candidato à vaga. Quando não era grande a concorrência, o candidato escrevia sob a tutela do possível orientador. Hoje já não ocorre assim, portanto os candidatos escrevem o projeto baseado no que foi sua monografia de conclusão de curso ou de especialização.”

A Dra. Nancy Umisedo (USP) comenta que “na Faculdade de Saúde Pública, as regras são diferentes das outras escolas. Como a maior parte dos pós-graduandos já é profissional e de áreas diversas (a Nutrição é uma exceção) quem escreve tudo é o próprio aluno.”

A Dra. Roseli Künzel (USP) aponta ainda outro fator: “No meu caso, para a inscrição de mestrado, era necessário enviar um projeto, mas o projeto final quem escreveu mesmo foi a orientadora. Mas existem áreas em que o projeto é exigido para a inscrição no programa, por exemplo, na Geografia da USP.”

Ou seja, talvez o ideal para o projeto de mestrado é que ele seja elaborado juntamente com o estudante e escrito na maior parte pelo orientador. No entanto, fatores como a competição entre alunos, o tempo disponível para escrever os projetos, a necessidade de não interromper o suporte financeiro ou o perfil dos estudantes que buscam mestrado alteram a carga da responsabilidade pela redação do projeto de mestrado.

Ainda por cima, existe sempre a pressão financeira. Dependendo do assessor e do órgão de fomento, se o projeto estiver mal estruturado e mal escrito o estudante pode ficar sem bolsa. O envolvimento ativo do orientador é ainda mais importante nesses casos.

Se a sua experiência diverge das experiências acima, compartilhe!

Leia também:

Contribuíram para este artigo: Iracimara Messias, Roseli Künzel, André Sawakuchi, Nancy Umisedo e Eduardo Yukihara.

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Sobre Emico Okuno

Emico Okuno é Professora Sênior do Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Possui bacharelado e licenciatura em Física pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (1960) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1971). É autora ou co-autora de diversos livros didáticos de ampla utilização nas universidades do Brasil, inclusive os livros “Física para Ciências Biológicas e Biomédicas”, “Radiação: Efeitos, Riscos e Benefícios”, “Desvendando a Física do Corpo Humano: Biomecânica” e o mais recente “Física das Radiações”. Ela tem mais de 70 artigos publicados em revistas científicas internacionais e serve regularmente como revisora de artigos para diferentes revistas científicas e projetos de pesquisa para agências como a FAPESP e o CNPq.
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7 respostas para Quem deve escrever o projeto de pesquisa de mestrado?

  1. Thamiris disse:

    Acredito que outro aspecto importante nessa questão é que, em algumas áreas mais do que outras, não se tem um projeto de pesquisa no que o aluno gostaria de trabalhar, não se tem um leque tão grande de oportunidades. E o mestrado acaba sendo mais um projeto do orientador do que do aluno, mais por este não estar familiarizado com o que está acontecendo no universo da pesquisa.
    Adorei o artigo!

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  2. Sempre é o professor que joga o assunto do projeto (em geral ele já tem até nome) ou obriga o aluno a trabalhar dentro do eixo (limitado) de pesquisa do orientador. Geralmente, com uma determinada espécie, limitado a um sistema do corpo desse animal; se você propõe algo com outro órgão, a pessoa nem quer ouvir. Como resultado, no meu entendimento, temos um monte de gente sem criatividade e especializada naquilo que o orientador quer, não no que o aluno gostaria de estudar.
    Estou lendo o livro “Pedagogia dos sonhos possíveis”, de Paulo Freire, e confesso que estou um pouco assustada com o que está escrito ali. O livro é composto por textos avulsos do educador, os quais são entrevistas ou debates de que ele participou, há pelo menos 25 anos atrás. Ele, analisando os fatores que determinam o (in)sucesso do processo de escolarização da pessoas, percebeu que alguns professores impõem suas ideias aos estudantes para criar uma “dependência emocional” nesses indivíduos, a fim de não permitir que as pessoas pensem por si mesmas. E temo que seja isso o que esteja acontecendo em nossos cursos superiores. Se a universidade é o lugar onde podemos pensar para resolver problemas, e se são criados robôs técnicos, onde os que vão continuar a trabalhar pelo progresso científico? De outro modo, não se poderá reclamar da exportação de cérebros…

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  3. Aline P. Silva disse:

    Escrevi meu projeto SOZINHA, ele passou pela banca sem nenhum professor ver antes, muito menos o orientador pretendido. Penso que é assim que deve ser, tanto por justiça quanto para provar que se tem a capacidade de escrever um projeto, que é o básico, né?
    Desculpem-me, mas não consigo ver com bons olhos as N injustiças fomentadas por seleções de mestrado – e pós em geral – nas quais os professores já têm os seus selecionados, visto que até o projeto deles escolheram, elaboraram… É forçar demais.

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    • Aline, obrigado pelo comentário muito bem colocado. O artigo que escrevemos foi baseado na nossa experiência e área e não se aplica aos casos em que o projeto é um fator no processo de seleção. Quando puder vou revisar o artigo incorporando esse ponto. Por enquanto, o seu comentário fica registrado para orientar outros leitores.

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  4. mpm disse:

    Acho interessante complementar apenas no sentido de compartilhar informações. Na Universidade de Brasília, de forma a garantir a transparência do processo, os orientadores não podem nem trocar ideia com o candidato. O anteprojeto faz parte do processo seletivo e no máximo você escolher um orientador com base nas informações disponibilizadas no edital. Se for aluno da instituição no máximo pode perguntar ao professor se ele poderá ser seu orientador caso você seja aprovado no processo seletivo. Além disso, nenhum professor que esteja envolvido com o processo seletivo poderá ser consultado para quaisquer fins. O candidato deve escrever o anteprojeto sozinho e este deve ter de 7 a 10 páginas. O aluno é livre para pedir ajuda a qualquer professor dentro da instituição que não esteja participando do processo seletivo, seja esse do próprio departamento ou qualquer outro.

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  5. Silvia Patricia disse:

    Eu também estou escrevendo o meu pré-projeto de pesquisa sozinha.

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