Como ser bem sucedido como cientista?

Bom, se eu soubesse a resposta talvez não precisaria estar escrevendo projetos de pesquisa o tempo todo.

Recentemente um ex-aluno de Física do nosso departamento, que fez graduação, mestrado e doutorado na Oklahoma State University e hoje é COO (Chief Operating Officer) de uma empresa de tecnologia, visitou o departamento e conversou com os alunos. Quando indagado sobre o que aprender para ser bem-sucedido, o primeiro item que ele mencionou foi a habilidade de comunicação (escrever e fazer apresentações).

Esse episódio é interessante porque torna evidente um dos problemas básicos da estrutura de educação científica: muitas instituições (inclusive a minha) colocam uma ênfase desproporcionada no conhecimento teórico e formal, deixando em segundo plano o desenvolvimento de habilidades que são importantes para o sucesso profissional.

Comunicação. Conseguir dinheiro de pesquisa é cada vez mais competitivo. Escrever bem é importante não apenas para a publicação de artigos científicos, mas antes de tudo para ter mais chances de sucesso com projetos de pesquisa que vão financiar a atividade científica. Profissionais atuando na indústria também têm que escrever relatórios e projetos. Habilidade de comunicação também não se restringe a aulas e conferências: frequentemente é preciso apresentar os resultados para administradores, agências de fomento, e potenciais investidores. Concursos e entrevistas para uma vaga são também oportunidades em que uma boa comunicação conta muito positivamente. O fato é que não basta ter uma boa idéia: é necessário saber apresentá-la de forma clara e convincente.

Planejamento e gerenciamento. Seja uma pesquisa financiada ou não, é preciso planejar e gerenciar a execução do projeto. Isso significa gerenciar um orçamento de centenas de milhares de dólares, apresentar relatórios dentro do prazo, priorizar atividades, planejar participação em conferências. Além disso, é preciso recrutar uma equipe competente, treiná-la, e ajudá-la a realizar o projeto de forma eficiente. É lógico que a atividade científica requer uma flexibilidade muito maior do que outras áreas, mas isso não significa que ela não possa se beneficiar de um bom planejamento e gerenciamento.

Conhecimentos interdisciplinares. A dinâmica atual requer profissionais com muito maior flexibilidade com relação a área de atuação. Os projetos de pesquisa frequentemente requerem conhecimentos em mais do que uma área específica. Por exemplo, mesmo atuando em Física, conhecimentos práticos de eletrônica e química são fundamentais para áreas de pesquisa aplicada. Eu, particularmente, me arrependo de não ter aproveitado melhor as disciplinas de outras áreas que tive que cursar, como química e biologia.

Organização. A realização de um projeto de pesquisa ou acadêmico (por exemplo, escrever um livro) pode se beneficiar de uma boa organização. Isso vai desde a organização dos artigos impressos ou digitais por assunto até o estabelecimento de procedimentos padronizados para o registro de amostras produzidas, comunicação e troca de resultados dentro do grupo de pesquisa, organização dos equipamentos e áreas de trabalho dentro do laboratório etc.

Liderança. Além de dar aula, fazer pesquisa e orientar, o cientista trabalhando com uma equipe deve ser capaz de motivar a equipe, oferecer uma visão para o futuro da pesquisa e do laboratório, e servir como mentor.

Bom, sempre existirão os gênios que podem ser bem sucedidos apesar de ineptos em todas as áreas acima. No entanto, quantos de nós se encaixam nessa categoria? Já foi muito dito que fazer ciência é 90% suor.

Lógico que conhecimento teórico e técnico e, acima de tudo, capacidade analítica e criatividade são importantíssimos em ciência. Mas com a atual disponibilidade de cursos, palestras e informações, estar ciente das nossas limitações com relação às habilidades discutidas para tentar remediá-las pode ser bastante oportuno e vantajoso.

É também importante observar que a atividade científica pode ser muito mais abrangente, dinâmica e variada do que pode parecer. Tenha isso em mente da próxima vez que lhe perguntarem se você “trabalha ou só dá aula”?

Na sua experiência, existem outros pontos que deixamos de mencionar?

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Contribuiu para este artigo: Emico Okuno

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Sobre Eduardo Yukihara

Pesquisador | Professor | Autor
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7 respostas para Como ser bem sucedido como cientista?

  1. Roberto Rocha disse:

    Concordo plenamente com as observações apresentadas. Acrescento ainda que ser disciplinado, gostar do que faz e dormir bem – por mais incrível que possa parecer – são segredos para “manter a forma”. O que ocorre é que o próprio mercado condiciona as pessoas a viverem a toda velocidade, e isso deixa a sensação “eu não tenho tempo”. Dormir cedo, tipo 21:00 .e acordar cedo, lá pelas 4:00, para “estudar”, parece ser algo impossível de acontecer. No entanto, acredito que são regras importantes a serem adotadas em nossa vida. É certo que teremos que abrir mão de outras atividades para que isso ocorra. É uma questão de opção e estilo de vida. Qual o seu estilo?

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    • Sandra Matias Damasceno disse:

      Concordo plenamente! Devemos procurar disciplina inclusive para nossa rotina saudável. Muitas vezes não é fácil, acabamos sucumbindo às exigências que o trabalho nos impõe e nos “deixamos de lado”, sem tempo para nós mesmos.

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      • Essa é uma questão interessante que vocês apontaram. Eu concordo em tentar um balanço em geral, mas na minha experiência a situação é mais complicada.

        Às vezes estamos tão comprometidos em resolver um problema que é difícil seguir uma rotina. Eu chego até a ter dificuldade em dormir enquanto o problema não está resolvido.

        Também cheguei a ficar até de madrugada no laboratório para terminar séries de experimentos e garantir que os dados fossem comparáveis.

        Ou seja, dependendo do comprometimento, a pesquisa cientifica pode ser muito intensa, sendo difícil “desligar”.

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  2. Murilo Zanini de Carvalho disse:

    O artigo está apresentado de forma muito clara e objetiva. Acredito que apenas faltou adicionar o comprometimento. Estar comprometido com o trabalho, o projeto que está sendo desenvolvido, representa uma grande fronteira entre um trabalho que atende os prazos estabelecidos e um trabalho realizado em conjunto dos prazos finais para submissão/entrega.

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  3. Patrícia B. R. Gasparian disse:

    Gostei muito do artigo, sem dúvidas concordo com todas as observações/habilidades apresentadas e quero enfatizar a organização. Um laboratório bem organizado e um grupo de pesquisas bem organizado disparam pesquisas! Enquanto um laboratório desorganizado e um grupo desorientado podem empacar mentes brilhantes.

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  4. Thamiris disse:

    Eu sempre acreditei que o trabalho em equipe é o que leva as pessoas à tão sonhada glória. E isso exige cada item citado nesse artigo. E eu compartilho do arrependimento de não ter aproveitado melhor as outras disciplinas. Até numa conversa de bar a gente sente o peso do conhecimento interdisciplinar, quem dirá numa pesquisa, num trabalho, no ambiente acadêmico.
    Adorei o blog! É muito bom ter alguém para dizer o que a gente pensa e o que a gente precisa começar a pensar.

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