Contratação de professor em universidade nos EUA: A entrevista

O processo de seleção para uma posição de professor em uma universidade norte-americana envolve ao menos duas fases:

  • O departamento que tem uma vaga para docente/pesquisador prepara a chamada “short-list”, que é a lista de candidatos a serem entrevistados pessoalmente pelo departamento. Nesta fase a seleção é baseada nos currículos e cartas de recomendação e, em alguns casos, entrevistas por telefone.
  • Uma entrevista que consiste em uma visita de 1-2 dias ao departamento, no qual o candidato conversa com professores, estudantes (de pós e de graduação), chefe do departamento e ao menos um outro administrador (por exemplo, o Dean do College), e apresenta um colóquio. Em geral a visita também inclui ao menos uma ocasião social informal, como por exemplo uma recepção, um almoço ou um jantar.

O objetivo da entrevista é tanto o departamento conhecer o candidato, como o candidato conhecer o departamento. Ambas as partes estão interessadas em descobrir se têm interesses em comum, se podem trabalhar em cooperação e se podem conviver.

Tendo isso em mente e assumindo que o candidato é competente cientificamente, esses são outros aspectos a considerar:

Entrevista com professores. Os professores estão interessados em descobrir, além das competência do candidato, se podem conviver com essa pessoa no departamento e, em alguns casos, se essa pessoa traria novas possibilidades de colaboração. O último ponto é particularmente importante quando a vaga é destinada a criar massa crítica em uma área específica. A entrevista com cada professor dura em geral ~30min e, exceto em departamentos grandes, todos os professores entrevistam o candidato individualmente.

Para se preparar para essas entrevistas, o melhor é ler sobre as áreas de investigação desenvolvidas no departamento, sobre os grupos de pesquisa, e sobre os interesses de cada professor. É importante entender o interesse do entrevistador, saber falar, e saber ouvir. É preciso estar preparado para interagir com as diversas personalidades que compõem um departamento.

Entrevista com administradores. Além do discutido acima, os administradores estão também interessados em saber o que o candidato precisa (ou acha que precisa) para ser bem sucedido. Uma pergunta frequentemente feita pelos administradores é: “O que você precisa, em termos de espaço e start-up (fundos dados pela universidade para o professor recém contratado)?”

Essa pergunta é, em geral, a mais complicada pelos seguintes motivos: (i) Os administradores provavelmente já sabem quanto estão dispostos a investir na nova contratação, mas estão interessados em saber se o candidato é realista (demanda algo razoável) ou irrealista (demanda muito mais ou muito menos do que o esperado); (ii) o valor disponível varia consideravelmente, em até uma ordem de magnitude, conforme o tamanho da universidade e do departamento, a área de pesquisa (teórica ou experimental), o tipo de posição (tenure-track ou não), e o nível (e.g., Assistant Professor, Associate Professor, Full Professor).

Minha sugestão nesse caso é tentar descobrir antes da entrevista, através de conversas prévias com o chefe do departamento ou colegas mais experientes, qual a ordem de magnitude do start-up. Se isso não for possível, o melhor é ser flexível e ter em mente cenários alternativos para explicar como você poderia ser bem sucedido com um valor muito menor, ou o que você poderia fazer a mais com um valor muito maior. Tenha uma idéia clara do que você pretende fazer com o start-up.

Colóquio. O colóquio é obviamente a ocasião em que o candidato vai poder demonstrar seu conhecimento, mas não se engane: a audiência assistirá ao colóquio com outros objetivos igualmente importantes. O primeiro é conhecer a didática do candidato e ter uma idéia do seu desempenho em uma sala de aula. O segundo é conhecer o plano de pesquisa do candidato e saber se o candidato tem uma idéia clara do que pretende fazer dentro do departamento, além de competência para cumprir o plano.

A sugestão para um colóquio de 45-60min é fazer uma introdução ao assunto que seja clara e acessível nos primeiros 15-20min. Nos seguintes 15-20min o candidato pode entrar em maiores detalhes sobre os seus estudos com o rigor necessário. Os últimos 15-20min podem ser dedicados ao plano de pesquisa, inclusive com informações concretas de onde o candidato pretende obter dinheiro para financiar o projeto. É importante demonstrar que o plano de pesquisa pode atrair estudantes e financiamento das agências de fomento.

Ocasiões sociais. As ocasiões sociais são relaxadas, mas importantes. Todos querem conhecer o candidato que está sendo entrevistado para saber se poderiam conviver com ele. Essas são as ocasiões em que a personalidade do candidato é a mais transparente.

Em minha opinião, não é necessário tentar impressionar ninguém ou ter uma opinião para tudo. Aproveite para conhecer mais o departamento e saber se esse é um lugar do qual você gostaria de fazer parte.

Erros. Os erros mais graves em uma entrevista são:

  • Ter pouco conhecimento do departamento.
  • Ter pouca idéia do que precisa para começar (não ter um plano claro e não saber explicar em detalhe a finalidade do start-up)
  • Apresentar um colóquio muito confuso.
  • Falar demais.

Leia também:

Contribuiu para este artigo: Emico Okuno

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Sobre Eduardo Yukihara

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