A questão do plágio

O plágio é uma prática cada vez mais frequente e muito problemática. A mídia digital e a internet não só tornaram fáceis os processos de “copiar” e “colar”, mas também estão “redefinindo como os estudantes entendem o conceito de autoria”, como discutido em um artigo recente do The New York Times [1].

Plagiar é praticar roubo: consiste em “cometer furto literário, apresentando como sua uma idéia ou obra, literária ou científica, de outrem” e “usar obra de outrem como fonte sem mencioná-la” [2]. O site plagiarism.org lista os seguintes exemplos de plágio [3]:

  • apresentar ipsis litteris todo ou praticamente todo o trabalho de outra pessoa como seu;
  • copiar frases inteiras, palavras ou idéias de outros autores como se fossem suas;
  • não colocar uma citação entre aspas;
  • fornecer informação incorreta sobre a fonte de uma citação;
  • copiar a estrutura de uma sentença de uma fonte, mesmo mudando as palavras, sem citar a fonte;
  • copiar palavras ou idéias de uma fonte de forma que elas constituem a maior parte do seu trabalho, dando crédito ou não.

Os estudantes devem ter esses exemplos em mente e discutir a questão com seus orientadores. Afinal, segundo Stanley Fish, professor da Florida International University (Miami), para os estudantes “aprender as regras que regem o plágio é pior do que aprender as conjugações de verbos irregulares de uma língua estrangeira” [4].

O plágio não é só um problema para os estudantes. Recentemente um professor da USP foi demitido porque “liderou pesquisa que plagiou trabalho de outros pesquisadores” [5]. Segundo o pesquisador, “não houve plágio, mas lamentável erro de substituição de figuras pela minha ex-aluna de doutorado” [5]. Sem entrar no mérito deste caso, a afirmação do pesquisador é problemática, pois o pesquisador é, no fim das contas, responsável pela pesquisa e produção realizada sob sua orientação.

Os orientadores devem estar vigilantes para indícios de plágio por parte de estudantes, colaboradores e outros autores. O indício mais óbvio de plágio é a falta de consistência no texto: por exemplo, trechos bem escritos misturados com trechos com problemas gramaticais. Uma busca de alguns desses trechos pode rapidamente apontar a fonte que não foi propriamente citada e colocada entre aspas.

Ferramentas como o Turnitin (turnitin.com, iParadigms, LLC) comparam automaticamente os textos com diversas fontes online. Usamos o Turnitin regularmente para checar manuscritos e teses que recebemos para análise, inclusive manuscritos enviados por revistas científicas para revisão. Em várias ocasiões essa ferramenta nos ajudou a detectar casos de plágio.

Mais informações:

  • plagiarism.org
  • turnitin.com

Referências:

  1. T. Gabriel, “Plagiarism lines blur for students in digital age,” The New York Times, New York (2010). Disponível em: <http://www.nytimes.com/2010/08/02/education/02cheat.html>. Acessado em 22 de fevereiro de 2011.
  2. “Plagiar,” em Moderno Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis, (Editora Melhoramentos Ltd., 2011). Disponível em: <michaelis.uol.com.br>. Acessado em 22 de fevereiro de 2011.
  3. “What is plagiarism?,” Disponível em: plagiarism.org. Acessado em 22 de fevereiro de 2011.
  4. S. Fish, “Plagiarism is not a big moral deal,” The New York Times, New York. Disponível em: <http://opinionator.blogs.nytimes.com/2010/08/09/plagiarism-is-not-a-big-moral-deal/>. Acessado em 22 de fevereiro de 2011.
  5. “USP demite professor por plágio em pesquisa,” Folha.com, São Paulo (20/02/2011). Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/saber/878368-usp-demite-professor-por-plagio-em-pesquisa.shtml> Acessado em 22 de fevereiro de 2011.

Contribuíram para este post: Emico Okuno e Stefanie Menusso.

Sobre Eduardo Yukihara

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11 respostas para A questão do plágio

  1. Anônimo disse:

    Muito bom contar com estas informações, ainda mais porque divulgadas pelos que estão contribuindo para o “fazer ciência”! Atte, Mariangela Amendola

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  2. Pingback: A questão do plágio « Christiane Donato

  3. Lucas disse:

    Olá professor!
    Li o artigo de seu site sobre plágio e adorei, mas ainda me restaram algumas dúvidas. Vou listá-
    las abaixo:

    1. Como eu sei que estou plagiando? Por exemplo, meu tcc envolve adsorção, e já li em diversos sites e livros a definição
    sobre a mesma, mas nenhum deles dava crédito a ninguém.
    2. Como eu faço um citação devidamente correta, para que eu não tenha problemas futuros? Existem tipos diferentes
    de citações? Se sim, quais são?
    3. Referências ou bibliografia? Existe alguma diferença?
    4. Existe algum programa gratuito onde eu possa checar o meu texto?
    5. Um trabalho de nível técnico deve conter muitas citações? Até onde eu posso afirmar que o conhecimento foi gerado
    por mim, sendo assim, sem necessidade de citação?

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    • Lucas, muitas dessas questões você deveria trabalhar com o orientador do seu trabalho, se houver um. Não sei se sei responder tudo, mas se fosse um estudante meu me perguntando, eu diria o seguinte:

      1. Escreva com as suas palavras, do zero, sem ter os textos na frente. Se a ideia veio de outra fonte, mesmo que tenha sido escrito nas suas palavras, cite a fonte. Se você acha que alguma referência definiu o conceito de forma excepcionalmente boa, repita o texto entre aspas (para indicar que não foi você que escreveu) e cite a fonte.

      2. Existem diferentes tipos de sistemas de citação, tipo autor-data e numérico. Se você não é obrigado a usar nenhum em particular, o autor-data pode ser o mais simples. (Precisamos escrever um texto explicando esses sistemas no futuro. Por enquanto, baixe um artigo meu publicado na revista Radiation Measurements, que usa o sistema autor-data, como modelo: http://physics.okstate.edu/yukihara/Personal/Publications.html – enviarei a senha por e-mail).

      3. Boa pergunta… Na minha área a gente cita os trabalhos no texto de forma abreviada (e.g., Smith et al., 2010) e coloca a referência completa na lista de referências. Outras áreas talvez usem a bibliografia só para citar os trabalhos consultados, mas não tenho familiaridade com esse sistema. (Alguém poderia responder essa pergunta?)

      4. Não que eu saiba. Quando tenho dúvida em algo que estou revendo, eu copio o trecho no Google entre aspas para ver se ele veio de algum lugar. (Alguma outra sugestão?)

      5. Acho que o critério não é esse. Se a ideia veio de outro trabalho, cite a fonte para o leitor poder atrás da informação para entender mais. Ou seja, a citação funciona tanto para dar crédito como para indicar outras referências para o leitor. Se for um valor que você mediu, um projeto que você fez, uma ideia que você propôs baseado nos seus dados, não há o que citar.

      De qualquer forma, acho que estar preocupado com essas questões já é um passo importantíssimo para evitar o plágio.

      Espero que isso seja útil, mas agradeceria se outros leitores pudessem comentar nas perguntas e respostas acima também.

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  4. Anônimo disse:

    Bom dia pessoal!!!
    Estamos procurando entendermuitas duvidas sobre citação, referencia bibliografica, este material vai ajudar bastante.. Obrigada Zetildes.

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  5. Anônimo disse:

    Bom dia amigos!
    Tenho lido muito a respeito desse assunto, mas tenho cá minhas dúvidas se existem trabalhos 100% isentos de plágio. Explico: Pela regra da ABNT, todo trabalho científico tem como base alguma literatura para que se torne confiável, e, quer queira, quer não, muitos acadêmicos incorrem nesse “erro”. Acredito que as instituições responsáveis por essa normatização deveria definir mais claramente o que é realmente o plágio.

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  6. Anderson disse:

    Além disso, há ainda a questão do autoplágio, considerado menos grave; Quando um autor copia, por exemplo, uma frase de algum artigo seu já publicado continua sendo plágio. Ao publicarmos um artigo cedemos todos os direitos do texto e das figuras para a revista de publicação.

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    • EBERVAL SANTOS DA SILVA disse:

      ANDERSON, EU DISCORDO DE VOCÊ EM RELAÇÃO AO AUTOPLÁGIO, POIS MESMO A REVISTA TENDO DIREITOS COMERCIAIS O DIREITO DE AUTORIA DA IDEIA CONTINUA SENDO DE QUEM ESCREVEU E EU ENTENDO QUE PLÁGIO É APROPRIAÇÃO DA IDEIA DO OUTRO E NÃO A RETOMADA DE UMA IDEIA SUA REFERIDA EM UM NOVO TRABALHO.

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      • Eberval, essa questão não é tão simples, principalmente quando os autores dos documentos não são os mesmos. Acho que esse assunto merece um artigo escrito por alguém com conhecimento na área de direitos autorais. Fica anotada a sugestão.

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  7. Recomendo o programa Farejador de Plágio em português; disponível em http://www.farejadordeplagio.com.br/, cujo registro particular ou pessoal custa R$ 19,90 e inclui todas as atualizações futuras.

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  8. EBERVAL SANTOS DA SILVA disse:

    OLÁ PROFESSOR, SOU GRADUANDO DO ÚLTIMO SEMESTRE DE PEDAGOGIA E JÁ PENSO EM CONCORRER AO MESTRADO NO FINAL DO ANO, A POUCO TEMPO ESCREVI UM ARTIGO PARA A DISCIPLINA DE EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A PROFESSORA ME ACUSOU DE PLAGIAR, ALIÁS ELA ACUSOU 100% DA SALA DE 37 ALUNOS, NA HORA EU ME REVOLTEI, ME OFENDI E BRIGUEI FEIO COM PALAVRAS E QUIS QUE ELA ME PROVASSE O PLÁGIO, POIS EU PASSEI HORAS ESTUDANDO O ASSUNTO, LI BASTANTE LIVROS E REVISTAS SOBRE A TEMÁTICA E EM MINHA MENTE TINHA PLENA CONSCIÊNCIA QUE NÃO TINHA ROUBADO ROUBADO OU ME APODERADO DO TRABALHO DO OUTRO, MAS AGORA LENDO SOBRE PLÁGIO ACHO QUE NA HORA DE REFENCIAR AS FONTES EU FIZ DE MANEIRA ERRADA, MAS TAMBÉM ACREDITO QUE A PROFESSORA ERROU POR NÃO TER ORIENTADO OS ALUNOS DURANTE A ESCRITA, POIS ELA ACOMPANHOU DE PERTO E DEIXOU PARA OBSERVAR NA HORA DA NOTA.
    QUERO LHE PARABENIZAR PELAS INFORMAÇÕES, POIS NO PROJETO DO MESTRADO E NA ESCRITA DO TCC NÃO PRETENDO COMETER O MESMO ERRO.

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